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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

"Minha família é a dança"

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Tatiana Leskova na remontagem do balé Les Sylphides (Foto: Arquivo Pessoal)

       Pense em força. Pense em graça. Pense em leveza. Pense em determinação. Pense em excelência. Falar com Tatiana Leskova, uma das maiores - se não a maior - referência em balé no Brasil, e às vésperas de completar 93 anos - no próximo dia 6/12 -, é mais do que um prazer profissional, é um privilégio. É uma aula sobre a vida, sobre querer mais, sobre superar as adversidades, sobre ressignificar o que é casa, família. É renovar a vivacidade, é desejar também viver tanto, tão intensamente de forma constante. É desejar um futuro assim: bem, dançando e fazendo planos. 

       
Por mais que diga que nessa idade não se faz mais projetos, Tatiana não esconde o quanto ainda quer saber e entrega que ainda planeja, sim. "Adoro biografias e livros sobre História! Quero ainda ler muitos, tenho muito o que aprender", revela. E a realização não fica só no plano doméstico. Tatiana ainda capitaneia grandes iniciativas, como a remontagem, este ano, do balé Les Sylphides apresentado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. O Municipal, inclusive, é uma das parcerias mais antigas, que perdura desde a sua primeira visita ao país, em 1942, em turnê como bailarina do Original Ballet Russe, companhia de Londres. E é assim, entre o hoje e as memórias que Tatiana conta sua história.

O começo


       Francesa de nascimento, russa de origem e brasileira de coração, Leskova aportou definitivamente no Brasil em 1944, aos 22 anos. Bailarina de destaque na companhia inglesa, a jovem Tatiana não esperava o que os trópicos a trariam: uma paixão avassaladora. "Você já sabe, né? Me apaixonei por um brasileiro e não pude mais ir embora. Foi minha grande paixão. Na minha vida as coisas sempre aconteceram naturalmente, sem grandes planos ou expectativas, apenas a vida", revela. E assim foi por 40 anos e, graças a esse amor, a bailarina criou raízes e começou a cultivar aqui o que transformaria em sua família. 
       
       Tatiana perdeu a mãe cedo, aos 9 anos de idade, quando ainda morava na França. A família de origem russa - ela é bisneta do escritor russo Nikolai Leskov - foi para Paris em 1917, fugindo da revolução bolchevique - em uma fuga que ela classifica como "cinematográfica". Suas bases, salienta, vem da origem francesa, dos 16 anos que morou em Paris. Mas nem o balé, que começou muito jovem, foi uma intencional. "A dança simplesmente me escolheu e fez dela a minha vida", conta emocionada. 

O Brasil

 
       Quando veio ao Brasil, apesar de jovem, Tatiana já tinha uma carreira internacional consolidada. Com 17 anos de idade, para se ter uma ideia, após completar um ano na companhia, Tatiana já colecionava a incrível marca de 354 espetáculos. Com 22 anos, idade em que resolveu vir de vez para o Brasil, ela já tinha viajado e se apresentado em todos os continentes, mais de uma vez. Não apenas isso, o balé trouxe o privilégio de conviver com grandes nomes da dança e da música ? como Fokine, Rachmaninov, Stravinski e Balanchine. Mas o foco sempre esteve todo voltado à dança, ao aprimoramento técnico e o reconhecimento profissional. 

D.Tânia

  
       E foi aqui que Tatiana virou Dona Tânia, apelido carinhoso que recebeu entre a família da dança, e fez de tudo para desenvolver o balé no país. Dirigiu o balé do Theatro Municipal do Rio - que virou quase uma segunda casa - em três ocasiões, a primeira delas, em 1950. Dona Tânia sempre foi conhecida por ser uma professora rigorosa e teve um papel preponderante formando bailarinos de excelência - Ana Botafogo e Márcia Haydée são apenas alguns dos nomes que passaram pelo estúdio de Leskova. “Sempre gostei muito de ensinar. Desculpe minha voz que continua meio rouca depois de muitos anos dando aulas”, brinca ela. “Mais do que ensinar a dançar, nos falta ensinar a apreciar a cultura que envolve a dança. Quanto mais contato temos com ela, mais aprendemos a admirar e mais emoções despertam. Seríamos um país melhor se fôssemos mais abertos à cultura”, salienta. 

       Tatiana ainda traz esse lado mestra muito forte. Para ela, por exemplo, é muito mais difícil ser um bom professor, do que um bom bailarino. "Faltam professores verdadeiros hoje em dia, professores que saibam ensinar, que saibam estimular e que despertem o amor à dança. O professor não tem que ser o melhor dançarino, o professor tem que ser um inspirador", professa. Foi esse rigor, técnica e noção de dramaticidade aguçadíssima que fez com que Leskova profissionalizasse o corpo de baile do Municipal carioca, alçando o grupo a um outro status, revelando estrelas e coreógrafos. Suas habilidades didáticas - aquelas mesmas que a própria salienta serem essenciais - impulsionaram a criação do próprio estúdio em 1952, e que formou centenas de profissionais até 2002.

Consciência crítica

       Natural que, vivendo tanto, tendo parâmetros e extrema lucidez, Dona Tânia saiba apontar bem o que falta para o desenvolvimento. "Precisamos de mais grupos de excelência, como a Escola do Bolshoi, em Joinville. Eles têm o amor pela dança, bons professores e disciplina. Um grupo que não deve a ninguém lá fora. Eles têm um grupo bem formado. Eles, sim, precisam de muito estímulo e patrocínio para continuar evoluindo e disseminando", avalia. Leskova se entristece vendo os grandes templos de cultura, lutando para sobreviver. "Os teatros, tantos palcos lindos, que receberam tanta beleza, estão funcionando no vermelho, precisando alugar o espaço para sobreviver, sem apoio nenhum do governo." A falta de investimento, principal, segundo D. Tânia, é em cultura. "A dança, tão rica, tão emocionante, tão viva, luta para encher os teatros. Isso é falta de investimento em cultura, em dar acesso para ensinar a apreciar. Chega de só apresentar o Quebra Nozes", decreta.
     
       Como se pode perceber, D. Tânia ou Tatiana, segue vivaz, enérgica como sempre, e querendo, ainda, transformar a dança no Brasil. Lugar esse onde ganhou a maior, mais presente e mais constante família. 

Para saber mais

       Como não poderia deixar de ser, Tatiana tem sua história contada em livro. Para saber ainda mais sobre essa protagonista da dança no Brasil:  

Tatiana Leskova: uma bailarina solta no mundo de Suzana Braga, publicado pela Editora Globo.  

Tatiana Leskova: nacionalidade bailarina
de Roberto Pereira, publicado pela Funart, 2001.  

Ballet Fotográfico - Imagens de uma bailarina solta no mundo
Organização: Joel Gehlen Editora: Letradágua  

Tatiana Leskova: uma bailarina solta no mundo
, documentário
Direção: Tatiana Valera Duração: 90 minutos    

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  • JimmiXS 12/08/2016 01:33:31 YiopIx http://www.FyLitCl7Pf7kjQdDUOLQOuaxTXbj5iNG.com
  • Tyler 31/08/2016 14:27:58 I've lost my bank card
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