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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

A dança sentida com palavras: audiodescrição é a inclusão no universo da arte

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Festival de Dança de Joinville dá show de acessibilidade em sua noite de abertura Foto: Divulgação/Festival de Dança de Joinville

       A apresentação da Escola do Teatro Bolshoi do espetáculo Quebra Nozes na noite de abertura do 33º Festival de Dança de Joinville, em 22 de julho desse ano, teve aplausos emocionados de uma plateia muito diversa. Mais do que olhos atentos aos delicados movimentos das bailarinas, mais de 30 pessoas acompanharam de olhos fechados, mas de ouvidos e corações abertos. Com a oferta da audiodescrição – tradução visual do espetáculo dirigida a deficientes visuais – essa plateia especial sentiu (muitos pela primeira vez) a mesma emoção do espetáculo de dança.  

       “A audiodescrição proporciona que os deficientes visuais na plateia verdadeiramente possam assistir ao espetáculo. Sem esse recurso, eles ficam só ouvindo a música e poucos ruídos dos movimentos feitos no espaço cênico. Com a audiodescrição, vemos a emoção dessas pessoas no contato com a arte, uma emoção que é única, que perpassa as limitações”, explica Lívia Motta, uma das pioneiras do país a atuar na área, e que pela segunda vez fez o roteiro descritivo para a noite de gala do festival catarinense, o mais importante do país.

       Victor Aronis, coordenador geral do Festival, explica que a intenção é tornar o festival cada vez mais inclusivo e entende que acessibilidade deve ser uma obrigação. “A arte, a dança e a cultura devem ser abertas a todos. Um festival com essa abrangência não pode excluir ninguém. Não temos intenção de fazer sessões exclusivas para deficientes: queremos que todos assistam e aproveitem juntos aos espetáculos”. Por isso, explica o coordenador, o recurso de audiodescrição foi adotado em 2014, além da tradução em libras para a comunidade surda. Algumas companhias de dança no país já entendem essa importância que Aronis pontua e fazem questão da oferta nos espetáculos. É o caso, por exemplo, dos projetos, apoiados pelo O Boticário na Dança, Cia Híbrida, do Rio de Janeiro, o Festival Internacional VivaDança, de Salvador, e a companhia Gira Dança, de Natal.    

       Hoje, o site do Festival (www.festivaldedanca.com.br) foi totalmente remodelado para que cegos possam navegar com mais facilidade a partir de programas que fazem a leitura do material, o guia foi traduzido em braile e vem acompanhado de um CD com a narração completa da programação, e as sessões contam com tradução em libras para tudo, até em eventuais legendas em português.
 

       Os desafios de descrever a dança


       Audiodescrever é explicar tudo aquilo que está sendo visto para que pessoas com deficiência visual possam ter a experiência do espetáculo. “É uma tradução visual objetiva para que o público interprete, mas que, ao mesmo tempo, respeite a subjetividade da obra”, explica Mimi Aragón, publicitária que decidiu trocar de carreira e hoje toca, com a sócia Kemi Oshiro, que também deixou a carreira de jornalista, a empresa OVNI Acessibilidade Universal, que produz audiodescrição e legendas de som para diversos produtos.

       Kemi explica que o trabalho de tradução na dança é um pouco diferente, já que uma narração que simplesmente descreva giros, saltos, passos para a esquerda ou direita corre o risco não apenas de perder sentido, mas de se tornar entediante para o público. Para conseguir transformar dança em palavras, a elaboração de um bom roteiro passa por um trabalho minucioso, que envolve conversas com a direção e coreógrafos, para captar suas intenções e sutilidades, e o trabalho com o consultor cego, fundamental para saber se aquela leitura faz sentido. “Um deficiente visual é quem vai nos dar a certeza de que aquele espetáculo está realmente acessível”, salienta Mimi. Segundo Lívia, é fundamental que o audiodescritor tenha bastante conhecimento geral e de língua portuguesa, para que as sutilezas da dança possam ser narradas.

      Atualmente, dois tipos de audiodescrição são usados em espetáculos: a fechada, em que o  narrador fica em uma cabine e aqueles que necessitam da audiodescrição recebem fones de ouvido – nos mesmos moldes da tradução simultânea; e a aberta, que pode acontecer de duas formas: ou o grupo que necessita da audiodescrição fica junto e o narrador está próximo para que todos escutem, ou aberta para toda a plateia. “Em teatro infantil, é um recurso muito rico, pois funciona como uma contação de histórias e as crianças captam muito mais detalhes das obras, aprendendo a ler não apenas palavras, mas tudo aquilo que enxergam”, explica Lívia.
 
       A experiência de pessoas que não têm deficiência, mas que optam pela audiodescrição durante o espetáculo, também é comum. Na apresentação de O Quebra Nozes, Lívia conta que recebeu um relato que comprova a riqueza dessa recurso acessivo. “O homem, que enxerga, foi acompanhando a mulher cega na plateia e assistiu ao balé com a audiodescrição. No fim do espetáculo, veio agradecer e elogiar, pois conseguiu aprender muito mais sobre a história, prestar atenção em uma quantidade maior de detalhes cênicos, do que se tivesse ido só para ver”, conta.  

       Paixão por imagens que se transformam em palavras
 
       
       “A sensibilidade, um bom aporte da língua portuguesa e a disponibilidade do contato com o público alvo são as principais características que um audiodescritor deve ter”, avalia Lívia Motta. Professora de formação, Lívia começou a trabalhar como voluntária em uma escola para cegos em 1999. As descobertas do voluntariado viraram pesquisa acadêmica já em 2000, durante o período sanduíche do doutorado em Linguística Aplicada na Inglaterra, de onde trouxe muito material de estudo. A partir de 2005, começou a se dedicar integralmente à profissão e hoje trabalha, também, na formação de novos audiodescritores.  

        Foi Lívia quem despertou em Mimi a vontade de se dedicar a essa profissão, que é nova, mas que está em expansão. “Nunca, em nenhum dos comerciais premiados que produzi, recebi um retorno que mostrasse que o trabalho faz diferença na vida das pessoas. Aqui, constantemente somos lembradas disso, o que compensa todas as dificuldades do ofício. Estamos todos nos educando para a acessibilidade”, relata a publicitária.  

       Formação necessária
 
       
       Não existe ainda um curso de graduação ou técnico sobre o assunto. A formação era feita, até agora, apenas em cursos de extensão, que dependiam da dedicação do aprendiz em aprimorar o que aprendeu através da experiência. Esse ano, se forma a primeira turma do curso de Especialização em Audiodescrição da Universidade Federal de Juiz Fora. A formação, única no Brasil, tem como público-alvo comunicadores, artistas, roteiristas e profissionais em geral interessados em fazer a descrição narrativa de produtos audiovisuais, com objetivo de promover a acessibilidade cultural para pessoas com deficiência visual.  

       Oferecido gratuitamente na modalidade semipresencial, o curso tem uma carga horária de 360 horas. A procura foi tão grande que a universidade está anunciando para este ano o lançamento do edital para uma nova turma. “Essas ações são importantes para dar uma qualificação mais consistente aos profissionais. Além disso, disseminar esse conhecimento, é importante também para ser aplicado no ensino regular, para que as pessoas se eduquem para aprender a ler as imagens. É um conhecimento muito rico para todos”, salienta Lívia, que foi coordenadora pedagógica do curso.  

       Você conhece companhias e grupos de dança pelo país que trabalhem com audiodescrição ou tradução em libras em seus espetáculos? Conte para a gente nos comentários: O Boticário na Dança quer mapear essas iniciativas de inclusão através da arte! 

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  • Melissa 08/02/2016 23:17:22 A little rationality lifts the quality of the debate here. Thanks for coiutnbrting!
  • Mayara 10/02/2016 12:53:42 I find it so hard to believe that it was only a month ago that i didn't know how to boil and egg and no i can alautlcy cook dinner for my family instead of my wife always have to do it cyber882 http://rgqwnxcsgod.com [url=http://ldoopfqhg.com]ldoopfqhg[/url] [link=http://egqtfq.com]egqtfq[/link]
  • Claudia EccaRd 14/07/2016 09:43:03 Oi, sou professora de danca e realizo um projeto voluntario em uma escola para surdos. Este projeto se chama VibrAcao ,ja existe desde 2013, e trabalhaMos com a libras nos espetaculos. No dia 26 de setembro faremos uma apresentacao. Esta apresentacao esta sendo divulgada por um blog de uma escritora surda, ela e do rio grande do sul. E eu sou de ibipora para Na. Este e o blog- http://surdezsilencioemvoodeborboleta.com/blog/
  • JimmiXS 12/08/2016 01:34:28 weDruj http://www.FyLitCl7Pf7kjQdDUOLQOuaxTXbj5iNG.com
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